29 outubro 2009

SOLILÓQUIO 01

Uma tribo
É isso que eu sou
Esse "eu" estranho
Que nunca a civilização
controlou
Eu vou limpar minha alma
Para me renovar
Para cair
E para me torturar
Com uma dor de dentes insuportável
Com gengivas inflamadas
E uma terrível câimbra nos maxilares
Que me absorve totalmente
E me faz romper com tudo
Até o ponto de não
Tocar mais a vida
Até o ponto em que o desaparecimento se revela
Eu vou limpar a minha alma
E não vou parar
Antes de encontrar a paz
Antes de parar de me perder nos meus pensamentos
Antes de me libertar da dor de ser livre
Essa dor ardente
Sentir os pensamentos que se deslocam
Estar sempre a caminho
E jamais parar
Em mim
Eu não vou parar de
Limpar minha alma
Camada após camada
Até que reste apenas
A calcificação esférica
De um único pensamento
Eu sou um espírito queixoso
Que não sabe como agir
E que toma sempre o caminho incerto
Da mortificação delirante que é sua vida
Que gravita apenas nos despenhadeiros escarpados
Talvez eu tenha apenas uma tarefa!
Eu mordo a mão de Deus
Eu não solto os dentes
Continuo a morder até ser lavado
Pelos jatos de sangue de Deus
Eu não devo me purificar
Porque ele me cega
Estou destinado a ser um vidente 2
Que não vê
Eu erro
Eu flutuo
Eu não vou parar
Camada após camada
Eu vou limpar minha alma
até que reste apenas
a calcificação esférica
de um único pensamento
Eu sou o velho cão
selvagem
Que vê as cores do arco-íris
E que geme e chora sob a lua e
Sob o sol
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Um esqueleto destroçado
Envolvido por músculos finos e ardentes
Raquíticos e crispados
Como se fosse feito de vidro
E frágil
Para examinar o estrangulamento do seu ser
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu sei
Eu perdi a minha língua
Mas isso não dá a vocês
o direito de continuar
Eu desconfio
Dessas merdas peremptórias
Que etiquetam
As criações e o pensamento
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos cantores de ópera
Esses funcionários gordos e
bem pagos
que escarram sons em sua alma com
a precisão de flechas castradas
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos compositores
Essas putas de opereta que vomitam notas
E copiam uns dos outros as
Melodias afetadas
A golpes de mouse no computador
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst, 3
Pssss
Eu desconfio dos atores
Esses travestis maquiados demais
Que só sabem falar quando
Alguém lhes escreve um texto
E parecem papagaios mecânicos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos escritores
Esses escrevinhadores plagiários
Que deixam seu espírito traficado girar
Ao sabor dos ventos, como cata-ventos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Lá onde outros propõem criações
Eu só quero mostrar
Meu espírito implicante
Eu não quero mais lamentar isso
Pois eu perdi a minha língua
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
O que estou fazendo?



- Jan Fabre

21 outubro 2009

06.10.09'

Nada passava despercebido naquele corredor tão estranho, a não ser eu. Palavras escritas, palavras falavam, palavras ouvia. Até então, ouvir o meu passado chamar no final do corredor, ‘oi linda!’, aquela voz, aquele cheiro, num momento rápido de piscar os olhos, voltava para casa; ouvia ‘vem! Vem!’ Enquanto meu caminho de volta eu corria. Ao me jogar em seus braços foi como voar sobre lembranças.
Tudo era tão bom, e ‘tudo vai ficar bem’, vou matar as saudades enquanto ainda posso.


Guigo,♥

03 outubro 2009

Aqui, um coração parado no tempo. Lá fora a vida continua sem saber..

Ao lado nada me chama atenção. A minha frente, algo que não consigo alcançar.

O guerreiro conhece uma velha expressão popular: “se arrependimento matasse..”.
E sabe que arrependimento mata; vai lentamente corroendo a alma de quem fez algo errado, e leva à autodestruição.
O guerreiro não quer morrer desta maneira. Quando age com perversidade ou maldade – porque é um homem cheio de defeitos – ele não tem vergonha de pedir perdão.
Se ainda é possível, usa seus esforços para reparar o mal que fez. Se a pessoa a quem atingiu já está morta, ele faz o bem a um estranho, e oferece a tarefa em intenção à alma de quem feriu.
Um guerreiro da luz não se arrepende, porque arrependimento mata. Ele humilha-se, e conserta o mal que causou.


Um sonho tão perto, um futuro distante. Eu não sei, nem você sabe o dia de amanha. Estou eu, agindo com meu coração. Se não confias hoje, eu tentei de tudo para fazer com que confiasse. Lembranças do começo, do que foi tão puro vem a minha mente; ‘tudo que eu mais quero é ver você feliz’, é com o meu coração partido que te deixo ir, que sejas feliz e que olhe com o coração para as pessoas que agora cruzarem seu caminho. Eu sempre vou estar ali do seu lado, como um anjo da guarda, te protegendo, te fazendo sorrir, te amando por maior que seja minha solidão.


..mais que tudo, eternamente.